segunda-feira, 20 de novembro de 2017

“Volta ao lar” no teatro Eva Herz: conjurando fantasmas

Está em cartaz todas as terças, até o dia 5 dezembro, no paulistano teatro Eva Herz, uma montagem do clássico de Harold Pinter “Volta ao lar” (“The Homecoming”, de 1964) dirigida por Regina Duarte. O espetáculo vale a visita por uma porção de motivos: pela envergadura dramática do autor, pelo elenco competente (por vezes brilhante), pelas luzes que joga sobre o gênero feminino, e, neste sentido, pelos contornos que a diretora dá a essa representante de seu gênero, mais de 60 anos depois de ela haver pisado no palco pela primeira vez. 
Harold Pinter em 1969
O londrino Pinter, agraciado com um Nobel de literatura em 2005, escreveu uma obra que escapa ao engessamento da honraria. “Volta ao lar” vasculha os meandros de uma família londrina, antes e depois da chegada, nela, do filho Teddy (Mauricio Agrela), filósofo que fizera a vida na América como professor universitário. Junto consigo chega Ruth (Alessandra Negrini), ponto catalizador dos conflitos físicos e psicológicos que são cernes do drama, única fêmea em meio a um punhado de machos-alfa. 
Humanista – tendo se batido empiricamente contra regimes totalitárias na Europa e na América Latina, e se colocado contrariamente a Bush e Blair, quando da investida bélica no Oriente –, Pinter faz sua trama girar ao redor de uma mulher no momento de eclosão do movimento feminista na Europa. O percurso de sucesso de “Volta ao lar” em Londres e nos Estados Unidos (a produção aportou na Broadway em 1967, ganhando naquele mesmo ano o Tony de melhor peça) coincide, não por acaso, com a liberação da pílula anti-concepcional, o incremento da entrada da mulher no mercado de trabalho, o movimento hippie e a ascensão dos Beatles. E maio de 68 se avizinhava. 
Este background histórico é fundamental para que se compreenda a força crítica desta obra. Os machos tecidos pela arte de Pinter são variadas facetas de uma sociedade (patriarcal, desnecessário dizer) que ruía a olhos vistos. Max (Igor Kowalewski) é um açogueiro aposentado que tange a família a chicotadas, tal e qual rebanho: sua antiga profissão, mencionada em cena como mantra, serve de alegoria a um papel de carrasco que ele carrega para a vida. 
O irmão mais novo, Sam (Ivan Bellangero) é seu contraponto. Ele, que nomeadamente fugia das matanças perpetradas no açougue da família – as quais o então jovem Max era obrigado a assistir – para jogar palavras cruzadas, agora porta um espírito monacal, bafejado pelo volume da Bíblia Sagrada que continuamente traz nas mãos. Parcimonioso, Sam tenta insuflar bom-senso numa família que ele vê esfarelar-se diante de si, com a chegada de Ruth. 
Essa pureza traz em seu âmago, no entanto, a cólera divina. Quando vê os demais machos da casa decidindo sobre o corpo de Ruth, Sam transforma-se no Deus punidor das Escrituras, jogando na cara de Max a traição cometida no passado pela esposa deste, no carro que ele, Sam, dirigia. Sam é, na peça, chauffeur de carreira. Psicologicamente é o homem que nunca se fixa, tanto que ainda compartilha da família do irmão. Não se fixa mesmo no que toca ao gênero, já que porta consigo uma fragilidade historicamente atribuída às mulheres (cumpre aqui destacar o ótimo e matizado desempenho de Bellangero, um dos pontos altos do espetáculo). 
Lenny (Rodrigo de Castro, igualmente ótimo) e Joey (João Carlos Filho) são as duas outras facetas do mundo masculino que comparecem em “Volta ao lar”, o estratégico gigolô e o lutador de boxe com o cérebro nos punhos. Pinter coloca esses diversos exemplares da fauna masculina social para se digladiarem numa casa decrépita que é miniatura daquele mundo cujas estruturas ruíam nos anos 60. 
Uma figura curiosa no meio dessas alegorias é Teddy, filósofo que procura ponderar, no plano da ideia, sobre altas questões existenciais, enquanto que reduz Ruth ao convencional papel de mãe de três filhos e de sua mestra de cerimônia em suas incursões acadêmicas. No entanto, a mulher era de saída fêmea liberada, “modelo viva” em sua Londres natal antes de se casar com ele. E é a essa liberdade que ela termina voltando quando aceita o emprego equívoco que os homens da família lhe oferecem. 
“Volta ao lar” foge ao realismo para se transformar na arena na qual os âmbitos público e privado, misturados, selvagemente se engalfinham e se escancaram. Quem sai vencedora da contenda é Ruth, que principia a história subjugada pelos homens da casa para terminá-la fazendo todos comerem em suas mãos, as bestas-feras transformadas em suaves carneirinhos. É a contraparte irônica de sua homônima bíblica – a humilde mulher que, por suas maneiras altruístas, acaba se tornando a esposa do velho Boaz, cujos campos ela respigava. É, enfim, fêmea parida no seio de uma década de profundas revoluções, que o sensível Pinter percebeu e espelhou criticamente. 
A Regina Duarte cabe o mérito de ter percebido a atualidade deste texto, numa época de guinada conservadora na qual, último golpe, a mulher se vê em vias de perder o direito de abortar em caso de estupro. Sua adaptação procura dar ritmo nervoso ao texto, concentrando-se, em detrimento do fio narrativo e da explicitação paulatina das motivações de cada personagem, em criar tableaux nos quais se exacerbam sobretudo os momentos de tensão. 
Conduzida por uma bela trilha de matrizes africanas de Ismael Sendenski, a montagem reproduz, no palco, as síncopes sonoras. A competente cenografia de Serroni, sombria e nua, compõe com o conjunto, criando um espaço onde a opressão feminina é tangível e estravasa a quarta parede, sufocando o público. A reviravolta que a mulher experimenta ao cabo da história é catártica (que ela se realize na história que se constrói para além do palco!). 
Por fim, um último comentário, que retorna a essas relações entre arte e vida da qual eu ando me ocupando por aqui: dirigida por Duarte, a como sempre competente Negrini é, em cena, mimese de sua diretora. Contemporânea da Ruth histórica de Pinter, Regina deve ter experimentado muitos dos reveses desta que é agora a sua criatura. Não nos compete questionar aqui se a mimese é intencional ou não; a arte é feita desses sopros psicanalíticos. Compete-nos, sim, convidar o público a conhecer essa leitura dessa obra-prima, passados mais de 60 anos de sua primeira aparição.
Quero fazer um agradecimento especial à amiga Imara Reis, com quem vi a peça e tanto conversei sobre ela.

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